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Lindsay Corporation anuncia acordo para adquirir parte da Instrumentos Pessl
Com o investimento estratégico, a americana, fabricante e distribuidora global de equipamentos e tecnologia de irrigação, amplia sua presença no campo com as soluções de tecnologia agrícola avançada, sob a marca Metos®, fornecendo dados meteorológicos cada vez mais precisos e localizados
A Lindsay Corporation, sediada na cidade americana de Omaha, Nebraska, fabricante e distribuidor global de equipamentos e tecnologia de irrigação e infraestrutura, representadas pelas marcas Zimmatic™ e FieldNET™, anuncia acordo para aquisição de 49,9% na Pessl Instruments GmbH, com sede na Áustria, com opção de adquirir o restante da empresa posteriormente. A Pessl é líder global de soluções de tecnologia agrícola avançada sob a marca Metos® e oferece ferramentas de hardware e software IoT para tomada de decisões assertivas, incluindo dados meteorológicos precisos.
Por meio da integração dessas informações com o FieldNET, plataforma de gerenciamento de irrigação, somado aos dados do solo e das plantas, o produtor terá uma gestão da operação muito mais eficiente e assertiva. Além disso, passa a ter o uso racional da água, além da economia de energia, evitando desperdício de insumos, como os fertilizantes e os defensivos.
Este investimento da Lindsay ocorre menos de um ano depois de as duas empresas terem inicialmente celebrado uma parceria estratégica, divulgada em maio de 2023. O intuito foi alavancar a experiência combinada de ambas as empresas e expandir o aumento de valor para os produtores. A Pessl possui mais de 80 mil dispositivos conectados de coleta de dados em campo em todo o mundo, com 50 mil clientes ativos usando sua interface online FieldClimate.
Esses dispositivos conectados incluem estações meteorológicas, sondas de umidade do solo, armadilhas de monitoramento de insetos, câmeras de monitoramento de culturas, amostragem de solo e nutrientes. Além de rastreadores de máquinas e ativos e outros sensores que fornecem dados em tempo real sobre os principais indicadores de saúde agronômica.
Juntamente com a plataforma FieldNET Advisor™ da Lindsay, que sintetiza milhões de pontos de dados para fazer recomendações personalizadas aos produtores para aplicação de água precisa e eficiente, Metos® e FieldNET® fornecem uma solução de ponta, que abre a porta para futuras inovações revolucionárias na utilização de inteligência artificial na agricultura. Tudo isso, baseado na validação de dados mensuráveis, precisos e instantâneos. “A Lindsay continua comprometida em fornecer soluções de nível mundial para agricultores de todo o mundo, ao mesmo tempo em que oferece um valor incrível para nossos acionistas”, disse Randy Wood, presidente e CEO da multinacional americana.
Ainda segundo o executivo, “este investimento amplia e fortalece a nossa parceria existente com a Pessl, acelerando inovações na gestão da água, aumentando o nosso alcance global e fornecendo novas soluções necessárias para conservar os recursos naturais e expandir o potencial do nosso mundo. Estou animado para ver como nossas equipes trabalham juntas para revolucionar a forma como os dados são usados para informar decisões inteligentes e maximizar os recursos preciosos do nosso mundo”, disse.
Já Gottfried Pessl, CEO e fundador da Pessl, destacou que “no último ano, obtiveram a oportunidade de se conectarem com agricultores de todo o mundo e demonstrar como eles podem aproveitar o potencial combinado das soluções de hardware e software Metos® e do conjunto de produtos agtech da Lindsay”. Além disso, ele disse que o feedback tem sido fantástico e os resultados falam por si. “Estamos entusiasmados com o potencial que este investimento oferece, a inovação que ele facilitará e a oportunidade de expansão e integração adicional com a Lindsay, um líder comprovado em agtech”, endossou.
Espera-se que a transação seja concluída no segundo semestre do ano fiscal de 2024, sujeita às condições habituais de fechamento, incluindo aprovações regulatórias.
Parceria no Brasil
Anunciada no ano passado, primeiramente no modelo de parceria, as empresas lançaram a Estação Lindsay. Por meio de boletins meteorológicos publicados duas vezes por semana no Facebook, no Instagram @zimmaticbrasil, bem como via canal do WhatsApp (https://whatsapp.com/channel/0029VaABB43AjPXEKoxxX93N), os agricultores passam a ter a previsão do tempo de 7 até 14 dias com dados de precipitação, umidade e temperaturas máximas e mínimas.
“Esses boletins agrometeorológicos também são enviados aos clientes através da nossa rede de distribuidores”, disse Cristiano Trevizam, diretor de vendas e marketing da Lindsay América Latina.
Ainda segundo ele, a irrigação é muito mais que simplesmente repor a água nas plantas. “Para essa ser eficiente a qualidade da informação é fundamental e os equipamentos da Metos® (sensores, estações meteorológicas, entre outros), fornecem informações do microclima da propriedade rural, permitindo assim que a irrigação seja precisa, economizando agua e energia”, reforçou.
Para Eduardo Navarro, vice-presidente da América Latina da Lindsay Corporation, essa aquisição ajuda a acelerar ainda mais a integração dos dados meteorológicos para dentro da plataforma FieldNet. “Essa iniciativa entre as duas empresas no Brasil já acontece de maneira muito consolidada, e agora vamos poder gerar mais velocidade nas informações meteorológicas que são muito importantes para uma melhor decisão na aplicação de água. Tudo isso com dados localizados e muito mais concisos”, finalizou.
Sobre Lindsay Corporation
A Lindsay Corporation (NYSE: LNN) é uma fabricante e distribuidora líder global de equipamentos e tecnologia de irrigação e infraestrutura. Fundada em 1955, a empresa tem estado na vanguarda da pesquisa e desenvolvimento de soluções inovadoras para atender às necessidades de alimentos, combustíveis, fibras e transporte da população mundial em rápido crescimento. A família Lindsay de marcas de irrigação inclui sistemas de irrigação agrícola de movimento lateral e pivô central Zimmatic®, gerenciamento remoto de irrigação FieldNET® e FieldWise®, tecnologia de agendamento de irrigação FieldNET Advisor™ e soluções industriais de IoT. Para obter mais informações sobre a Lindsay Corporation, visite www.lindsay.com.
Sobre Pessl Instruments GmbH
Há quase 40 anos, a Pessl oferece ferramentas para a tomada de decisões informadas. Uma gama completa de sistemas de monitoramento sem fio alimentados por energia solar sob a marca Metos® e uma plataforma online FieldClimate são aplicáveis em todas as zonas climáticas e podem ser usados em vários setores e para diversos fins – da agricultura à pesquisa, hidrologia, meteorologia, alerta de enchente , remoção de neve, grama esportiva, cidade inteligente e muito mais. Ao longo dos anos, Metos® tornou-se uma marca global com apoio local e conseguiu chegar a quase todos os cantos do mundo. Para mais informações sobre a Pessl, visite www.metos.global.
Destaque
Mata Atlântica lidera ranking de área restaurada em novo mapeamento da Coalizão Brasil
Bioma conta com cerca de 131 mil hectares de florestas em recuperação — quase dois terços do total monitorado no país pelo Observatório da Restauração
A nova edição do observatório, mantido pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, foi lançada em dezembro e está disponível neste link: observatoriodarestauracao.org.br.
Ao mesmo tempo, o bioma é também o mais degradado do país. De acordo com Rubens Benini, diretor de Florestas e Restauração da The Nature Conservancy (TNC) Brasil e coordenador do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, restam menos de 24% da área original e, desse restante, metade está em processo de degradação.
“A Mata Atlântica vive um cenário delicado que requer muita atenção”, alerta Benini. “A pressão da expansão urbana e da agricultura tem acelerado o desmatamento. Para reverter esse quadro, iniciativas de restauração têm buscado recuperar áreas degradadas e reconectar fragmentos florestais. Mais de 2 milhões de hectares dessas áreas, por exemplo, estão em Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reservas Legais, o que representa não apenas um desafio, mas também uma oportunidade de garantir a manutenção de serviços ecossistêmicos, como a conservação de nascentes e rios que abastecem grandes centros urbanos.”
A restauração da vegetação nativa é fundamental para a manutenção do fornecimento de sistemas ecossistêmicos essenciais para a saúde, a produção agrícola, a segurança hídrica, a igualdade social e o desenvolvimento sustentável. Em sua contribuição ao Acordo de Paris, o Brasil comprometeu-se a restaurar 12 milhões de hectares até 2030 — a meta foi reforçada pelo governo federal em 2024, no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). Estima-se que a atividade pode gerar mais de 2,5 milhões de empregos diretos.
O OR tornou-se pioneiro na articulação com coletivos atuantes nos seis biomas brasileiros, que reportam dados com base em uma metodologia única, desenvolvida pela gestão da plataforma.
“O Observatório é uma ferramenta essencial não somente pela contabilização de hectares em si, mas pela articulação e visibilidade aos atores que fazem a restauração acontecer”, explica Tainah Godoy, secretária-executiva do OR. Dessa forma, a plataforma consegue integrar dados de qualidade que trazem a realidade do campo para os tomadores de decisão, como o poder público e investidores.
O processo de coleta e validação dos dados tem, portanto, uma análise diferente da feita por outras instâncias, como o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) — que, em um evento na COP 30, anunciou que o país conta com 3,4 milhões de hectares em restauração.
Os indicadores do MMA consideram diferentes dinâmicas de recomposição do território, incluindo extensas áreas de vegetação secundária em regeneração natural — ou seja, florestas que avançam de forma natural e espontânea. Já o OR trabalha com um recorte metodológico específico, baseado em informações autodeclaratórias de empresas e organizações que desenvolvem ações de restauração com algum nível de manejo ou intervenção planejada.
A restauração em outros biomas
Segundo o OR, os biomas mais beneficiados com projetos de restauração são a Mata Atlântica (com 131,2 mil hectares mapeados, o equivalente a 64% da área total monitorada) e a Amazônia (39,7 mil hectares, ou 19%).
No Cerrado, foram identificados 31,7 mil hectares em restauração (15% do território mapeado). Na Caatinga foram compilados mil hectares (0,06%), enquanto o Pantanal soma 280 hectares (0,01%) e o Pampa, 260 hectares (0,01%).
“A Mata Atlântica, Amazônia e Cerrado possuem redes multissetoriais pela restauração, consolidadas há anos, que impulsionam a recuperação de seus biomas. Isso contribui para o engajamento da sociedade, o desenvolvimento de pesquisas e a formação de mão de obra qualificada para a atividade”, ressalta Godoy. “Já os coletivos da Caatinga, o Pampa e o Pantanal iniciaram recentemente suas operações, e a estruturação de redes leva tempo.”
Nova versão do Observatório
Lançado em 2021, o OR é uma plataforma independente e multissetorial dedicada ao mapeamento de áreas em restauração. Seu comitê gestor é formado por Coalizão Brasil, WWF, WRI Brasil, Imazon, Conservação Internacional e The Nature Conservancy.
Em sua terceira edição, o Observatório da Restauração anuncia a retirada do termo “Reflorestamento” de sua nomenclatura, reforçando seu compromisso exclusivo com a recuperação da vegetação nativa e da biodiversidade. A decisão reflete o amadurecimento técnico e normativo da agenda ambiental, que diferencia claramente a restauração ecológica — voltada à integridade dos ecossistemas — de práticas de reflorestamento associadas a plantios comerciais e espécies exóticas. Com essa atualização, o Observatório garante maior clareza conceitual e alinhamento com compromissos nacionais e internacionais, como o Planaveg e o Marco Global da Biodiversidade de Kunming‑Montreal.
Nos últimos quatro anos, o grupo gestor do OR dedicou-se à qualificação dos dados, à coleta de novas informações, atualizações em seus processos de monitoramento e ao estabelecimento de parcerias com grupos atuantes no setor de restauração nos seis biomas brasileiros, conhecidos como coletivos biomáticos. São eles: Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, Rede pela Restauração da Caatinga, Pacto pela Restauração do Pantanal, Articulação pela Restauração do Cerrado (Araticum), Aliança pela Restauração da Amazônia e Rede Sul — esta última, com atuação no Pampa.
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Tarifa de 100% sobre açúcar orgânico ameaça indústria americana e rompe cadeia histórica com Brasil, alerta gigante global do setor
Segundo a OTA, Associação da Indústria Americana de Orgânicos, tarifas adicionais podem superar US$ 85 milhões e pressionar preços ao consumidor
A decisão do governo dos Estados Unidos de eliminar a Specialty Sugar Quota — mecanismo que permitia a importação de açúcar orgânico com tarifa reduzida — e de impor uma tarifa adicional de 50% sobre o produto importado ameaça a indústria americana de alimentos orgânicos e rompe uma cadeia de abastecimento construída ao longo de três décadas com o Brasil.
Com as medidas, a tarifa total aplicada ao açúcar orgânico brasileiro que entra nos EUA passa a ser de 100%. Estudo da Organic Trade Association (OTA), que representa a indústria de orgânicos no país, estima que a decisão pode gerar mais de US$ 85 milhões em taxação adicional paga pela indústria, com impacto direto sobre custos de produção e preços ao consumidor.
O efeito prático é imediato: o açúcar orgânico utilizado pela indústria americana passou a custar cerca de US$ 1.350 por tonelada, enquanto o açúcar convencional produzido no país é comercializado ao redor de US$ 600 por tonelada – uma diferença extrema entre dois produtos distintos, regulados por sistemas produtivos incomparáveis. O Brasil responde hoje pela maior parte do produto importado pelos Estados Unidos e sustenta uma cadeia agrícola dedicada e rastreável, estruturada especificamente para atender às exigências do selo USDA Organic, certificação oficial do governo americano para essa indústria. A eliminação da cota especial desorganiza esse arranjo produtivo, compromete a previsibilidade de exportações e afeta investimentos feitos ao longo de décadas para atender à demanda americana.
Para Leontino Balbo Jr., vice-presidente da Native – uma das principais produtoras globais de açúcar orgânico – a nova tarifa de 100% gera uma distorção no funcionamento do mercado. “Não se trata de uma disputa tarifária pontual ou de um pleito de exportadores”, afirma. “O açúcar orgânico é um insumo estrutural, sem substituto, em um mercado em que a produção doméstica é insuficiente. Ao elevar abruptamente o custo desse ingrediente, a política transfere pressão para a indústria americana e, no fim da linha, para o consumidor.”
Cadeia histórica
Foi justamente a limitação da oferta interna que, nos anos 1990, levou a indústria americana de orgânicos a buscar fornecedores fora do país. Em 1994, emissários da então nascente indústria de alimentos orgânicos dos Estados Unidos chegaram ao interior de São Paulo com um impasse concreto: havia leite orgânico, grãos orgânicos e frutas orgânicas, mas faltava açúcar orgânico para formular iogurtes, sorvetes, cereais matinais e outras categorias em rápida expansão.
A Native decidiu atender a essa demanda e iIniciou a conversão de fazendas para manejo orgânico, redesenhou a usina para processar exclusivamente açúcar orgânico e, em 1997, colheu o primeiro lote certificado, com 1.600 toneladas.
No ano seguinte, a produção já havia dobrado, acompanhando a expansão do consumo americano. Ao longo das duas décadas seguintes, usinas brasileiras responderam por cerca de metade de todo o açúcar orgânico utilizado pela indústria de alimentos orgânicos nos Estados Unidos. No mesmo período, o Paraguai reduziu sua produção, a Colômbia encolheu de três usinas para uma e a Argentina não expandiu capacidade relevante. “O único país que efetivamente investiu para sustentar o crescimento dessa indústria foi o Brasil”, afirma Balbo.
Outra consequência grave da instabilidade regulatória é o desmonte de uma cadeira intensiva em emprego. O modelo de produção de cana orgânica gera até 20 vezes mais postos de trabalho que o sistema convencional. “Retroceder a um patamar de produção de 20 anos atrás significaria demitir uma massa expressiva de trabalhadores”, afirma Balbo. “Estamos falando de um impacto social real, construído ao longo de décadas”.
Para a empresa, o impasse também revela uma lacuna diplomática. “Durante as negociações, só se falou em carne, café e suco de laranja. Até hoje não sabemos se o açúcar orgânico está sequer incluído na pauta”, diz o executivo. “Ninguém nos procurou para explicar os impactos dessa tarifa distorcida”.
A tarifa recai sobre um projeto reconhecido internacionalmente por padrões de sustentabilidade acima dos exigidos nos grandes fóruns globais, com reconhecimento do Boston Consulting Group e do World Economic Forum no programa Champions of Sustainability, menções da Ellen MacArthur Foundation, referência internacional em economia circular, e seleção pela Organização das Nações Unidas no programa Biodiversity in Good Company, que destaca empresas capazes de integrar efetivamente a biodiversidade da fauna aos seus sistemas produtivos.
Expansão
A decisão do governo americano chega em um momento de aceleração do mercado de orgânicos. Segundo a Organic Trade Association (OTA), as vendas de produtos orgânicos nos Estados Unidos cresceram 5,2% em 2024 — mais que o dobro do ritmo do mercado total, de 2,5% — e alcançaram US$ 71,6 bilhões. Segundo a entidade, esse crescimento se baseia em um conjunto restrito de insumos regulados, entre eles o açúcar certificado, classificado como ingrediente estrutural e sem substituto.
A OTA também constatou que o choque simultâneo de custo e oferta não afeta um produto isolado, mas categorias inteiras no setor — como cereais, snacks, chocolates, bebidas e alimentos infantis — com risco de redução de portfólio, descontinuação de linhas e perda de acesso do consumidor.
Segundo a Native, clientes da indústria americana de orgânicos já vêm sinalizando os efeitos da medida. Muitos estão suspendendo planos de expansão, e alguns, que já estavam em processo de construção de novas fábricas, reavaliam investimentos diante da incerteza sobre o fornecimento e o custo do açúcar orgânico.
“É uma contradição de política pública. Um mercado que acelera passa a ser tratado como se pudesse absorver uma ruptura de insumo”, diz Leontino Balbo Jr. O executivo defende que o USDA restabeleça o enquadramento regulatório anterior, para preservar o abastecimento e evitar a transferência de custos para a indústria e para o consumidor.
Para o Brasil, o efeito se manifesta do outro lado da cadeia. A instabilidade regulatória compromete a previsibilidade de exportações, trava decisões de investimento e desorganiza o sistema produtivo. “Quando uma política ignora a realidade da oferta, o impacto não fica restrito à fronteira. Ele desmonta um arranjo que sustentou o crescimento do próprio mercado por décadas”, diz Balbo. “O governo americano não está protegendo ninguém do nosso setor. Trata-se de uma distorção que prejudica mais a própria indústria americana que os fornecedores externos. Se isso for explicado com clareza pelas autoridades brasileiras, a situação pode ser corrigida rapidamente”.
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Viveiro com seleção genética, colheita mecanizada, automação e inteligência artificial já orientam decisões estratégicas das empresas de base florestal
A silvicultura brasileira vive uma transformação estrutural impulsionada pela adoção intensiva de tecnologia em todas as etapas do ciclo produtivo. Conhecida como silvicultura de precisão, essa abordagem combina genética avançada, sensoriamento remoto, automação, análise de dados e inteligência artificial para planejar, implantar, conduzir e colher florestas plantadas com alto nível de controle técnico.
Segundo o diretor executivo da Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE Florestas), Ailson Loper, a prática já está consolidada no Paraná e representa uma mudança profunda na forma de produzir. “A silvicultura de precisão é o uso coordenado de todas as tecnologias disponíveis para maximizar a produtividade e garantir a sustentabilidade. Hoje, conseguimos trabalhar em escalas cada vez menores, chegando ao nível da árvore individual”, afirma.
Genética avançada e viveiros altamente tecnológicos
O processo começa muito antes do plantio, nos viveiros clonais e pomares de sementes, onde a base genética das florestas é definida. Técnicas como polinização controlada, embriogênese somática, hibridação e clonagem são utilizadas para garantir maior vigor, sanidade e adaptação das mudas às condições locais.
A automação já está presente nesses ambientes, com sistemas que controlam irrigação, nutrição e temperatura em tempo real. O uso de bioinsumos e inimigos naturais reduz a dependência de defensivos químicos e fortalece o equilíbrio ecológico desde a fase inicial. “Cada muda é resultado de um planejamento preciso, sustentado por dados de solo, clima, relevo e material genético”, destaca Loper.
Plantio orientado por dados e microplanejamento
Ao chegar ao campo, a implantação florestal segue um planejamento altamente detalhado. Mapas de produtividade, análises de solo, modelos altimétricos e dados climáticos são integrados para definir a espécie e o clone mais adequados a cada área.
A silvicultura de precisão rompe com o modelo tradicional baseado apenas no hectare e passa a operar em microtalhões, ajustando práticas de manejo conforme a variabilidade do terreno. Sensores, estações meteorológicas e softwares de planejamento espacial orientam o uso eficiente de água, fertilizantes e insumos, aumentando o índice de sobrevivência das mudas e reduzindo perdas.
Monitoramento remoto e inteligência artificial no manejo
Após o plantio, o monitoramento da floresta é sustentado por drones equipados com sensores multiespectrais, câmeras térmicas e radares de alta resolução. Essas ferramentas permitem identificar falhas de plantio, estresse hídrico, pragas e áreas de baixa produtividade com elevada precisão.
As informações são processadas em plataformas digitais que geram mapas de vigor, biomassa e alertas operacionais. “Hoje, a tomada de decisão no setor florestal é cada vez mais baseada em evidências. A inteligência artificial nos permite antecipar riscos climáticos, ciclos de pragas e ajustar o manejo de forma muito mais assertiva”, explica Ailson Loper.
Colheita de alta precisão
Durante o ciclo de crescimento, operações como poda, desbaste e manejo de pragas são definidas a partir de modelos de crescimento e prognoses produtivas. Máquinas florestais modernas, com sistemas automatizados, executam essas atividades com menor impacto ao solo e maior segurança operacional.
Na colheita, a mecanização atinge seu ponto máximo. Harvesters e forwarders são máquinas florestais que trabalham em conjunto na colheita mecanizada. O harvester corta, desgalha e secciona a árvore em toras, enquanto o forwarder transporta essas toras processadas. Elas operam com sistemas embarcados de georreferenciamento e otimização de sortimentos, permitindo que cada árvore seja processada de forma precisa, reduzindo perdas e aumentando o rendimento industrial. Centros de comando integrados coordenam rotas, cronogramas e sequências de corte.
Uma tendência que já é realidade no setor florestal
O volume de dados gerado ao longo de todo o ciclo florestal alimenta sistemas de modelagem preditiva e mineração de dados, que orientam decisões estratégicas de longo prazo. Para a APRE Florestas, a silvicultura de precisão não é uma promessa futura, mas uma prática já consolidada nas empresas do setor.
“Estamos produzindo mais, com menor impacto ambiental e com base em conhecimento científico. Esse é o novo paradigma da silvicultura brasileira e ele já está presente nas empresas de base florestal no Paraná”, conclui Ailson Loper.
